Entenda a Diferença Entre Advaita e Dvaita, Impersonalismo vs Personalismo – Ateísmo no Yoga

Ao longo da história, aqueles que aceitam a existência de Deus têm se enquadrado em duas categorias: aqueles que acreditam que o aspecto último de Deus é pessoal e aqueles que acreditam que é impessoal. Usando a linguagem da tradição do yoga: aqueles que julgam que Deus é apenas brahman e aqueles que têm comunhão com Deus como bhagavan. A partir disso, temos as duas visões: impersonalismo e personalismo. Na história humana, numericamente, os personalistas superam imensamente os impersonalistas, seja no cristianismo, no judaísmo, no islamismo, no budismo ou na tradição do yoga.

As pessoas se esquivarem da questão de Deus é compreensível. Deus é terrivelmente mal representado e caluniado. Deus é retratado como genocida, sexista, racista, ciumento, homofóbico e violento. Em Seu nome, torturas sistemáticas indescritíveis têm sido feitas. Em Seu nome, cidades inteiras, com homens, mulheres e crianças inocentes, foram destruídas. Em Seu nome, até a atualidade, atos de terrorismo, assassinato e estupro são realizados. É acusado de ser um religioso fanático, desejoso de torturar eternamente qualquer um de Seus filhos que interprete mal esse ou aquele minúsculo detalhe teológico. Com efeito, o próprio conceito de inferno eterno, por si só, tornaria Deus o ser mais maligno imaginável.

Felizmente, essa retratação de Deus é completa e grosseiramente caluniosa e errônea. Os grupos que promovem o ódio e a violência em nome de Deus são aqueles que merecem nossa aversão, e não Deus. O fato é que o Ocidente viveu dominado por retratações muito estranhas e perturbadoras de Deus por dois mil anos, o que causou um tipo de desordem de estresse pós-traumático coletivo. Muitas pessoas simplesmente não querem ouvir nada sobre Deus. Tornou-se um tabu. À primeira menção, as pessoas se abaixam para se proteger ou correm.

Visto que Deus tem essa reputação tão ruim no Ocidente, há uma tendência a introduzir os aspectos espirituais da tradição do yoga sem qualquer referência a Ele. Estar em paz, mindfulness, controlar a mente, harmonizar-se com suas emoções, viver uma vida dhármica, cultivar gratidão, positividade, ver a unidade em tudo… isso tudo é naturalmente muito atrativo. Como resultado, a tradição do yoga veio para o Ocidente em uma versão carente de seus aspectos pessoais, e isso fomentou interpretações do yoga mais impessoais. O budismo também, que tem suas raízes no yoga impessoal, é não-devocional e completamente destituído de um conceito de Deus em suas apresentações mais populares no Ocidente.

A maioria dos grupos de yoga, todavia, não ensinam ou promovem o impersonalismo de uma maneira óbvia e aberta. Eles simplesmente encobrem Deus e fazem um pouco de referência à devoção, algumas vezes insinuando que você é Deus. Poucos grupos promovem especificamente o conceito de não haver um Deus pessoal ou entram em detalhes sobre o destino final da alma. Na maioria dos casos, apenas um observador mais experiente reconhecerá o impersonalismo que está sendo sutilmente ensinado e promovido.

Aqui estão algumas dicas para identificar grupos de yoga ou gurus que estão promovendo o impersonalismo:

  1. Eles dizem que não importa quem você adore: Krishna, Jesus, Ganesha, Shiva ou um anjo – é tudo o mesmo. É comum que, em tais grupos, quando você peça por iniciação, eles peçam para você escolher quem você quer adorar.
  2. Os gurus dizem que ele é Deus. Ou os discípulos dizem que ele é Deus.
  3. Priorizam a adoração de Shiva ou Ganesha
  4. O grupo adora predominantemente o guru. A foto dele está em toda parte, no altar, etc., e Deus não tem prioridade nas orações, no altar ou nos rituais que praticam.
  5. Eles ensinam que você é Deus, em vez de dizerem que você é divino ou uma centelha divina de Deus.
  6. Ensinam que somos todos um, sem contrabalancear essa afirmação com a explicação de que também somos todos diferentes, indivíduos eternos.
  7. Muito pouco se fala sobre Deus. E quando algo é dito, é vago, como “Deus é amor” ou “Deus é luz”.
  8. Se diz muito pouco ou nada sobre o estado final de existência a ser alcançado, a meta final em si, e frequentemente não se fala nada sobre a morada de Deus.

Por muitas vezes vi estudantes com anos de envolvimento com a espiritualidade do yoga vir ao meu centro de retiros de yoga e se surpreenderem ao ouvir que estavam seguindo um caminho impersonalista. Eles dizem literalmente: “Ninguém me explicou essas coisas”. Em geral, costumam pensar que estavam adorando Deus, não tendo decidido de maneira consciente não adorarem Deus ou pensarem que são Deus. As pessoas são iniciadas por gurus, dedicam anos de sua vida a práticas transmitidas por esses grupos e simplesmente nunca abordam a questão da natureza de Deus. É frequente que permaneçam em uma zona intermediária, entre o personalismo e o impersonalismo, sem dar ao tema “Deus” a análise meticulosa e demorada que merece.

Isso merece grande consideração e análise porque faz uma grande diferença. Não é algo com que se possa lidar de maneira vaga se você quer ser sério quanto à autorrealização.

O impersonalismo está dizendo que você não é um indivíduo, e você não é nem mesmo uma pessoa. Está dizendo que você é simplesmente brahman, luz transcendental. É por isso que você é Deus, porque Deus, segundo eles, também não é uma pessoa e não existe de fato, mas apenas o brahman existe – tudo é simplesmente brahman. A consequência disso é que, em última instância, não existe amor, porque amor é para pessoas. O amor requer alguém que ame e um objeto para o amor. No conceito impersonalista, porém, não há distinções. Tudo é um. Nenhuma variedade. Nenhuma cor. Nenhum sabor. Apenas brahman. Um brilho transcendental. E sua meta final é entender isso e abandonar suas noções acerca de ser uma pessoa, um indivíduo, ter sentimentos, dançar, beijar, olhar para as estrelas… e simplesmente se fundir com o brahman para brilhar eternamente.

Instrutores impersonalistas raramente deixam isso claro, muito embora, caso pressionados, essa é a filosofia deles. Em vez de abordarem isso, focam nos benefícios mais imediatos de mindfulness, harmonia, dharma, cura emocional, serviço social, trabalho humanitário, etc.

É claro que tudo isso é maravilhoso e também é, com efeito, parte do Caminho 3T. Contudo, minha inspiração é apresentar o caminho completo, pois os benefícios de fazê-lo são imensuráveis para o praticante. Algumas vezes, as pessoas ficam tão felizes e impressionadas com os resultados tão maravilhosos e tão numerosos de simplesmente praticar os três primeiros campos de perfeição do Caminho 3T, isto é, mindfulness, dharma e paz interior, que perdem interesse em adentrar os dois últimos: jnana e devoção. Contudo, tradicionalmente, esses dois eram o foco principal, e proporcionam os maiores benefícios de todos.

Eu gosto de ser uma pessoa. Eu gosto de variedade. Eu gosto de interagir de uma maneira amorosa com pessoas de bom coração. E considero irracional uma realidade sem Deus, sem uma fonte de tudo e todos, uma pessoa suprema que seja infinitamente atrativa e infinitamente amável e amante. Pergunte a si mesmo se você não prefere uma existência eterna, pessoal e com amor, com variedade e bem-aventurança sem limites, em uma morada divina, a simplesmente “brilhar” como brahman. Para mim, essa é uma escolha muito fácil.

Se você não está simplesmente ignorando Deus e realmente quer entender se o personalismo faz mais sentido do que o impersonalismo, na plataforma puramente racional, aqui estão alguns argumentos que tornam o conceito impersonalista difícil de ser aceito quando você dedica algum tempo a refletir.

  1. Causa e Efeito – Se o mundo material e a vida como vemos e experimentamos agora é a criação de algo superior, de Deus, podemos entender a natureza de Deus analisando a criação. Nesse sentido, podemos ver o mundo como o efeito, e Deus como a causa. É um princípio bem conhecido de lógica de que aspectos encontrados na causa também têm que estar presentes no efeito. Por exemplo, se você acorda e vê que as ruas estão molhadas (o efeito), o que causou isso tem que conter o elemento água, como a chuva (a causa). Seria irracional apontar como a causa das ruas estarem molhadas algo sem água. Agora, voltemos para a criação. A vida como a conhecemos é predominada por personalidade. É sem sentido falar sobre nossa experiência de vida sem personalidade. Personalidade é um componente de destaque, senão o maior componente, da realidade como a conhecemos (o efeito). Portanto, é irracional concluir que não há personalidade na causa. (Deus)

 

  1. O Simulador da Vida – Tanto os personalistas quanto os impersonalistas na tradição do yoga aceitam que a realidade material, sem qualquer noção de Deus e alma, é ilusória. Essa ilusão se chama maya em sânscrito. Nas tradições abraâmicas, isso não é dito com todas as letras, mas a ideia é a mesma: que esta não é a realidade última, senão que a vida no reino de Deus é onde a vida realmente acontece. Meu mestre espiritual, H.D. Goswami, faz uma comparação entre simuladores de voo e nossa experiência no mundo material. A vida, como a experimentamos aqui, só pode ser uma ilusão efetiva, e útil em algum sentido, caso simule nossa experiência de vida real e transcendente, além de deste mundo material. Ele argumenta: “Pilotos são treinados em simuladores de voo. O simulador só é útil caso simule a realidade do voo. Da mesma maneira, o corpo material, como um simulador da vida real, não teria nenhum valor caso a alma fosse impessoal ou eternamente descorporificada”.

 

  1. Nenhuma Pessoa, Nenhum Desejo, Nenhuma Criação – Se Deus não fosse uma pessoa, não poderia haver criação, pois, para se criar, é preciso que haja desejo, propósito. E desejos e propósitos são atributos unicamente de pessoas. Não existe conexão lógica entre um mundo complexo de personalidade, forma e variedade e um poder supremo que é simplesmente radiação. Similarmente, se a alma, em seu estado puro, é simplesmente luz, sem personalidade, não poderia ter desejado ou escolhido experimentar a vida pessoal corporificada.

 

  1. Se Tudo É Um, Por Que Há Dois? – Se tudo é brahman, o que é maya? E como maya pode sobrepujar o brahman? Se, em última instância, tudo é simplesmente essa radiação transcendental indivisa chamada brahman, o que é esse poder ilusório chamado maya? Se maya é outra coisa, então não temos mais apenas brahman. É, pelo menos, brahman e maya. E, para complicar mais, como esse poder ilusório sobrepõe brahman (eu e você?)? Se somos Deus, que poder é esse que nos engana há milênios? Que poder é esse que nos força a tanto sofrimento? A resposta é que esse é o poder ilusório de Deus, maya, que pode nos sobrepujar porque Deus é maior do que nós e porque nós não somos Deus. Como almas pessoais individuais, escolhemos estar aqui na tentativa de experimentar a ilusão da inexistência de Deus. Tão logo nos desinteressemos da ilusão da inexistência de Deus, não permaneceremos mais em maya.

 

  1. Nenhum Amor, Nenhuma Variedade, Nenhuma Atividade? – A conclusão de que não há nenhuma individualidade, nenhum amor, nenhuma variedade e nenhuma atividade é simplesmente contraintuitiva. Isso se opõe absolutamente a tudo que você valoriza. É um conceito tanto estranho quanto desconcertante. É suicídio espiritual. Talvez a vida não seja perfeita agora, mas abandonar a existência pessoal para sempre é um conceito muito perturbador.

Quando pressionados com esses argumentos, os filósofos impersonalistas tentarão refutá-los com os dizeres clássicos: “Palavras não podem descrever a verdade”. Não caia nessa. A filosofia impersonalista, ao longo da história, produziu bibliotecas inteiras de livros, de modo que os impersonalistas certamente não têm receios quanto a usarem palavras para promoverem suas ideias. Essa resposta é simplesmente uma declaração de falência lógica. O impersonalismo, na verdade, não faz sentido em questões importantes, daí argumentos como os apresentados acima não poderem ser contra-argumentados de maneira adequada.

Felizmente, a tradição do yoga apresenta claramente o ponto de vista personalista, que é muito mais racional, prazeroso para a mente e em harmonia com o que mais valorizamos na vida.

4 ideias sobre “Entenda a Diferença Entre Advaita e Dvaita, Impersonalismo vs Personalismo – Ateísmo no Yoga

  • 17/10/2019 às 13:42
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    Eu gosto muito de acompanhar vc Guiri escuto todos os dias e sempre é um pena para uma fase ruim ou alguma coisa que preciso ouvir Faco tudo por telefone Não tenho grana pra comprar livro é muito menos sair do estados Rio de aJaneiro mas não importa só de ter seus ensinamentos por aqui ta bom .

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    • 18/10/2019 às 12:02
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      Está muito bem-vinda! O foco mesmo é tudo online, de graça, então aproveite!

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  • 26/10/2019 às 06:08
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    DETALHE: Há um pequeno equívoco no texto:- O BUDISMO não tem conceito de DEUS e, portanto, não pode JAMAIS ser colocado em uma lista de tradições personalistas. Teoricamente, estaria mais próximo da vertente oposta, mas também não é um encaixe conveniente, pois o que muitos chamam de DEUS é na verdade UMA LEI MÍSTICA PERTENCENTE A NATUREZA BUDA MANIFESTA.

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    • 29/10/2019 às 15:34
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      Existem inúmeras linhas de budismo. As mais populares historicamente tem um conceito de Buda como Deus, com Reino de Deus e tudo mais.

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