Stories vs Fatos: A Luta Com Nosso Lado Emocional

Razão e emoção guiam nossas escolhas, nossas vidas. Para vivermos bem, precisamos entender como isso se dá em nós e o que podemos fazer para não ferir nossas emoções e perder o calor da vida que elas nos trazem, nem tampouco cair no outro extremo de agir de forma puramente emotiva e irracional.

Veja aqui meu vídeo sobre este tema.

Nosso lado emotivo é muito forte. E se não tomarmos cuidado, nossa vida vira um caos.

Um pesquisador descreve nosso lado emocional como um elefante. E nosso lado racional como o adestrador de elefante. Gostei muito dessa analogia.

Curiosamente na nossa tradição espiritual falamos como nossos erros se comparam a um “elefante louco” num jardim cuidadosamente cultivado. Imagine o estrago!

E é assim mesmo. Sem o direcionamento apropriado de nossa razão, o elefante de nossas emoções destrói tudo que queremos cultivar e deixa nossa vida numa bagunça.

Praticamente todos os problemas do mundo se devem a falta de bom senso, de usar a razão. Nós somos levados, impelidos, por sentimentos, por stories, e não fatos.

Os políticos e as grandes empresas sabem disso. Você pode estudar isso na publicidade, no marketing. É tudo sobre contar a “história”. Não escolhemos produtos baseados em fatos, mas em narrativas cuidadosamente construídas. Não escolhemos candidatos baseados nos fatos, mas no embalo emocional que conseguiram criar, normalmente apelando a emoções fortes como raiva e medo.

E por isso que o mundo está como está agora. É por isso que você tem um monte de coisa que não precisa em casa.

Deveríamos, porém, ser guiados pela razão, pela inteligência. As escolhas que fazemos, do que comer, que hábitos cultivar, que caminho espiritual seguir, ou em quem votar, deveriam ser feitas puramente com base em fatos, na razão, no bom senso.

Imagine um mundo onde o governo não toma decisões pensando em como manipular a opinião das pessoas, já pensando nas próximas eleições, mas nos fatos e no que realmente vai ajudar o país? O mundo seria um paraíso de justiça e progresso.

Como expliquei num artigo de 2017 sobre sentimento vs razão:

Um exemplo grosseiro: como é o sentimento de um racista? Ele criou um mapa mental das raças, considerando sua raça a melhor. Ele criou filtros em sua percepção, que lhe fizeram sempre enxergar o que tem de ruim nas pessoas que ele considerava como sendo de outra raça e filtros que traziam para ele confirmação de sua supremacia racial. Então, o que sente um racista sobre alguém de outra raça? Coisas negativas, coisas ruins.  E isso está correto? Não. É um engano. É um erro mental que ele criou – algo danoso que distorce a realidade. Mas é o sentimento dele ou dela. É a expressão de seu coração, é a sintonia com seus valores. Sentimento, portanto, erra quando operamos sob ideias e conceitos errados.

Agora pergunta para o racista quanto que é 2 + 2? Pergunta para o ateu, o cristão, o psicopata ou o santo… a resposta é sempre 4. A razão opera em outro campo do cérebro, o que é chamado do processo deliberativo. Não é influenciado por conceitos sutis. Em seu aspecto mais direto e puro, não passa por filtros.

No yoga verá que há uma ênfase grande no uso da inteligência para uma vida melhor, para conseguir a autorrealização. Em Sânscrito, a palavra para inteligência é “buddhi”.

Você já ouviu falar de Buda. Buda vem da palavra “buddhi”. Iluminado. Nas tradições espirituais do yoga e do budismo, iluminação é sinônimo de usar a inteligência, de não ser mais iludido, enganado.

Na Bhagavad-gita, a raiz do yoga, verá Krishna explicando o caminho do yoga. Lá Ele explica diferentes aspectos do caminho, como karma-yoga, jnana-yoga e bhakti-yoga.

Mas a primeira “yoga” que Ele ensina é buddhi-yoga, ou seja, “yoga da inteligência”. Ou seja, usar sua inteligência para trilhar seu despertar.

Famosamente no final do 3º Capítulo da Bhagavad-gita, Krishna diz que temos que usar o poder da inteligência para superar as tendências de agir de forma egoísta ou sob o efeito da raiva.

Temos esta capacidade de adestrar o elefante das emoções. Isso não significa perder o elefante, perder as emoções. Significa apenas que teremos a melhor vida possível e com isso poderemos cultivar emoções agradáveis naturais de uma vida com menos problemas.

Não é negar as emoções, não é ser frio. É usar a razão para avaliar os caminhos e escolhas da vida. É pensar seriamente. Avaliar com cuidado. Usar o discernimento e bom senso.

Devemos reconhecer que somos seres emotivos, que temos a tendência a ser guiados pelas emoções. Emoções essas que são facilmente manipuladas pelos outros e pelas circunstâncias. Aceitando essa realidade, buscamos entender que podemos ser guiados por nossa inteligência se assim escolhermos.

Eu abraço o poder de ser guiado pela razão. Eu escolho usar minha inteligência.

Outro dia postei um vídeo sobre o tema de viveka, discernimento, onde falei da importância de sermos guiados pela ciência, tanto material como espiritual.

Não podemos viver a vida como um elefante louco, derrubando e quebrando tudo. Até porque isso não traz uma boa saúde emocional. Não vou experimentar boas emoções seguindo minhas emoções. Vou experimentar paz e felicidade se eu tentar ser guiado por minha inteligência.

Quem está querendo ter uma vida melhor, quem está querendo um mundo melhor e quem está querendo buscar a autorrealização, deve assumir comando da vida com o uso da razão, da inteligência.

Não vamos deixar nossa vida ser guiada por stories, vamos buscar os fatos.

Assim é no caminho do yoga.

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