As Diferenças no Cérebro de Pessoas de Esquerda e de Direita

Há pesquisas fascinantes na neurociência, as quais mostram algumas diferenças na estrutura do cérebro das pessoas de acordo com sua inclinação política. Tais estudos afirmam que, apenas observando certas respostas e ativações de partes diferentes do cérebro, dá para saber, com alto grau de certeza, se a pessoa é mais afeita a uma ideologia de esquerda ou de direta. Vamos compartilhar aqui alguns desses fatos.

Veja aqui meu vídeo sobre este tema.

É importante destacar que estamos falando de inclinações gerais e diferenças sutis, porém perceptíveis, mas que não devem nos levar a qualquer tipo de preconceito ou estereotipagem. Estamos compartilhando resultados de pesquisas sobre questões reais, que podem nos ajudar a entender melhor nossa própria vida e sociedade. Esta compreensão da influência da estrutura e funcionamento do cérebro em nossas escolhas nos ajuda a entender e aceitar melhor o que acontece conosco e ao nosso redor.

Quem quiser entrar a fundo na compreensão do efeito do cérebro no nosso comportamento, incluindo este aspecto político, deve ler o impressionante livro “Behave”, de neurocientista Robert Sapolsky.

Vamos comparar aqui diferenças na maneiras de pensar e enxergar situações em geral em relação a níveis de inteligência (QI), à necessidade de hierarquia e ordem e à maneira como certas partes do cérebro são ativadas, em especial a amígdala cerebral e a ínsula.

Em pessoas de esquerda é possível observar uma maior visão do sistema e do todo, enquanto que nas de direita nota-se uma visão mais focada. Por exemplo, ao ver um bandido, alguém de direita pode pensar que é culpa por alguém ser bandido é do próprio bandido, e acabou. Por isso, bandido bom é bandido morto. Problema resolvido. Já alguém de esquerda vê também as influências sociais, as falhas no sistema educacional, na economia, etc. que estimularam aquela pessoa a se tornar um criminoso. Ou seja, existe uma análise do conjunto e não somente da consequência específica.

Da mesma forma, ao lidar com o racismo, alguém de direita pode pensar que basta que um indivíduo não seja racista que não haverá um problema a ser confrontado, tornando a coisa uma questão pessoal de cada um. Já alguém de esquerda pode demandar uma análise mais ampla sobre como o racismo atua no sistema e o que pode ser feito para mudar a situação.  Ou seja, como lidar com o racismo sistêmico, que tipos de treinamentos e mudanças precisam ser implantados, que tipo de política idealizada, para, ao longo prazo, realmente eliminar o racismo da sociedade.

Pode-se especular que esta visão da esquerda pode explicar erros cometidos, como o idealismo exagerado e a dificuldade em lidar com minúcias. Uma visão muito abrangente pode induzir alguém a tropeçar nos detalhes práticos de um projeto, impossibilitando sua conclusão de forma satisfatória. A acreditar que a gastança desmesurada em prol de um bem-estar social temporário é algo que poderia ser feito sem sérias consequências futuras. Ou pior, de ingenuamente acreditar que roubar, não para benefício pessoal, mas em nome dos ideais de esquerda não seria algo tão condenável assim.

Agora, um ponto polêmico: pesquisas mostram a prevalência de um QI ligeiramente mais baixo entre os conservadores em geral. E, já sem polêmica, um QI médio claramente inferior nas pessoas de extrema direita que apoiam regimes totalitários. A explicação é que pessoas com baixa inteligência apreciam soluções simples para problemas complexos, aliviando assim sua incapacidade de pensar em termos multifacetados e sistêmicos. “Fecha o Congresso” e “Com um soldado e um cabo fecha o STF”, são exemplos de uma visão super-simplificada.

Alia-se a esta tendência o fato que, na direita, costuma haver uma preferência por organização e hierarquia. “É simples assim: um manda o outro obedece.” Já na esquerda há uma aceitação maior da ambiguidade e flexibilidade.

Agora, uma análise de como reagem de formas diferentes, entre pessoas da esquerda e da direita, as duas regiões do cérebro chamadas: amígdala cerebral e ínsula.

A amígdala cerebral controla, entre outras coisas, o medo e raiva. Pode ser vista como nosso cérebro animal.

Já a ínsula é responsável por comandar os sentimentos de nojo, de repulsa.

Nas pessoas da direita repara-se que tanto a ínsula como a amígdala cerebral disparam mais facilmente.

Isto explica a tendência conservadora de rejeitar ou temer coisas diferentes daquelas com que estão acostumadas. Assim surgem o medo e a repulsa ao homossexualismo, a imigrantes em países com notável fluxo de imigrantes, a outras religiões, outras classes sociais, outras raças e até à natureza e ao meio-ambiente. Por consequência, surgem também a repulsa, a raiva e o medo em relação a ONGs e as celebridades que apoiam tais causas.

Pelo fato do medo ser mais facilmente ativado em pessoas de mentalidade conservadora, pode-se ver no mundo inteiro, e também na história, que as campanhas que ganham grande tração com conservadores são baseadas em ameaças: os judeus, os imigrantes, os Chineses etc.

Podemos facilmente observar como recentes campanhas da direita nos EUA, Reino Unido e Brasil apoiaram-se em mensagens de temor e repulsa. Elege-se uma pessoa não por uma criteriosa análise das qualidades pessoais e das propostas sendo apresentadas, mas sim para evitar um temido e desagradável resultado caso o oponente seja eleito. Pelo contrário, prevalece a ideia que, mesmo sabendo que o candidato não tem boas qualidades, é ainda assim um “mal necessário” para evitar um medo maior.

Nos EUA isso levou a extremos onde pessoas mais fanáticas e menos instruídas passaram a acreditar que políticos de esquerda fazem parte de uma cabala satânica comedora de crianças e por isso deveriam ser mortos ou presos.

No Reino Unido, a direita fomentou o ódio e repugnância aos imigrantes para emplacar o Brexit, cultivando o medo da perda de emprego, da ameaça à cultura nativa, etc. No auge das campanhas, cidadãos de descendência estrangeira eram abordados de forma agressiva nas ruas com pedidos de “voltarem para suas casas”, apesar de terem nascido no próprio Reino Unido.

No Brasil, muitos analistas concluem que Bolsonaro foi eleito não por quem é, mas para evitar um outro governo do PT.

Hitler, famosamente, ativou o ódio aos judeus para se instalar no poder.

Já as pessoas de esquerda demoram mais para ativar sua ínsula, porém, uma vez ativada, os sentimentos são mais intensos. Isto pode explicar por que vemos ataques tão fortes e violentos das pessoas de esquerda contra abusos de poder atos e outros atos tidos como inaceitáveis por parte de políticos do direita.

Os governos populistas conservadores sofrem com a mídia, pois os jornalistas expressam intensamente sua repugnância aos atos de tais governantes de direita. Ou seja, as pessoas de tendência esquerdista ficam literalmente revoltadas com os atos dos políticos da direita, com nítida ativação de sua ínsula.

Também, além do pensamento mais racional que é proporcionado pelo córtex pré-frontal, temos a questão do instinto. Pessoas de direita costumam confiar nos seus instintos, ou naquilo que sentem. Trump famosamente disse que confia mais em seu instinto do que em especialistas ou na ciência. Fatos são secundários. O que importa é o sentimento. Deu no que deu.

Esta análise baseada em pesquisas é tão precisa, que torna possível saber, com elevado grau de acerto, qual é a orientação política de uma pessoa testando sua ativação da amígdala cerebral e ínsula.

Curiosamente, pesquisas mostram que o contrário também funciona. Ao ficarem expostas a cenas de coisas ou imagens repulsivas, as pessoas tendem a agir de forma mais conservadora.

Fica aqui então um convite à reflexão. Até que ponto as pessoas estão realmente fazendo uma escolha política consciente e não apenas seguindo sua biologia? Até que ponto é útil nos desgastarmos com debates políticos contra aqueles que seguem uma ideologia política diferente da nossa?

Sabendo que seu cérebro pode estar lhe influenciando politicamente, não seria bom parar e pensar melhor nas suas escolhas políticas? Repulsa, medo e sentimentos infundados podem (e devem) ser controlados pelo uso do córtex pré-frontal, ou seja, a razão e a inteligência. Suas certezas políticas podem passar pelo crivo do bom senso.

Creio que quanto mais pessoas entenderem a influência velada das diferentes regiões do cérebro em escolhas políticas, melhor elas possam pensar e consequentemente melhor escolher seus líderes. Esquerda ou direita, o que precisamos é de mais honestidade, seriedade e inteligência no campo da política.

2 ideias sobre “As Diferenças no Cérebro de Pessoas de Esquerda e de Direita

  • 03/11/2020 às 11:50
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    Haribol
    Obrigado pelo artigo, Prabhu.

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  • 04/11/2020 às 22:48
    Permalink

    Concordo em gênero número é grau com tudo o que foi comentado em tela. Excelente reflexão.

    Responder

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