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O que é Hinduísmo?

por Giridhari Das

A definição técnica e jurídica do termo Hinduísmo foi dada pela Suprema Corte da Índia, que definiu hindu como sendo aquele que aceita os Vedas como sua escritura.

Os Vedas são um vasto corpo de literatura, onde destaque-se as quatro escrituras (samhitas) Rg, Yajur, Sama e Atharva-Vedas, os Puranas (cujo principal é o Srimad Bhagavatam), o Mahabharata (do qual o Bhagavad-gita é a seção mais importante), Vedanta-sutra e Upanishads (do qual o Sri Isopanisad é um dos mais importantes). As quatro samhitas básicas não são práticas para nós, pois descrevem atividades que não podem ser realizadas nessa era (de acordo com os próprios Vedas). Basicamente esses textos descrevem elaborados sacrifícios e seus respectivos mantras para obtenção de ganhos materiais e promoção a planetas superiores dentro do universo material. Tecnicamente esse tipo de prática é chamada de karma-kanda. Porém, os Vedas nos ensinam que além de karma-kanda existem os processos de yoga (jnana, astanga e bhakti) que nos proporcionam resultados muito mais importantes que a mera religião materialista ou atividade piedosa.

Estamos habituados a entender o termo yoga como sendo algum tipo de exercício físico. Mas, na verdade, a palavra significa “ligar, conectar”. E também é usada para descrever um processo, uma ciência. Portanto, essas diferentes práticas de yoga são, na verdade, diferentes processos de se re-conectar (religar - religare - religião) com Deus.

O Srimad Bhagavatam (1.2.11) explica que Deus pode ser visto de três maneiras distintas: 1) Brahman: Seu aspecto impessoal, todo penetrante, energia cósmica, luz divina; 2) Paramatama: Seu aspecto localizado dentro de todo ser vivo; e 3) Bhagavan: Seu aspecto pessoal supremo.

Simplificando bastante, pode-se entender que jnana-yoga é o processo de obter Brahman, astanga-yoga é o processo de obter Paramatma e bhakti-yoga é o processo de se obter Bhagavan, a Suprema Personalidade de Deus.

E, de todos as práticas de yoga, Krishna (um nome de Deus que significa o todo-atraente) explica no Bhagavad-gita, no verso 6.47, que a prática superior é bhakti-yoga (consciência de Krishna). A conclusão é que a essência de todo o conhecimento védico é a pura consciência de Krishna - essa declaração se encontra no Bhagavad-gita, onde Deus, Krishna, diz: “Através de todos os Vedas, é a Mim que se deve conhecer. Na verdade, sou o compilador do Vedanta e sou aquele que conhece os Vedas” (15.15). Explico melhor esse processo de bhakti-yoga, ou consciência de Krishna, no livro Ciência Espiritual - Visão Geral e Prática. No ocidente essa prática, também denominada de Vaishnavismo, foi introduzida e continua sendo largamente difundida pelos seguidores da cultura Hare Krishna.

Para entendermos o atual uso do termo “hinduísmo” devemos analisar sua história, dividindo-o em três principais períodos.

O primeiro, que podemos chamar de antigo ou védico, é marcado pela total inexistência do termo. Hindu ou hinduísmo simplesmente não existiam na antiguidade e nunca foram usados em qualquer escritura. Esse termo foi criado pelos invasores do que hoje chamamos de Índia. Quando Alexandre, o Grande, invadiu a Índia em 325 a.C. ele cruzou o rio Sindhu, que fica onde hoje é o Paquistão, e o chamou de Indus, por ser mais fácil de pronunciar em grego. Em grego o “h” é silencioso como ainda vemos hoje em palavras como homo, herói e nomes como Helena, Hércules, Heitor, etc. Assim, as terras ao leste desse rio ficaram conhecidas como “Índia”. Muitos séculos depois, os invasores muçulmanos chamaram o rio de Hindu, pois tinham dificuldade de pronunciar Sindhu e as terras ao leste do rio ficaram chamadas então de “Hindustan”.

O segundo período, marcado pela presença já consumada de invasores muçulmanos na Índia, dura do século quatorze ao século dezenove. Nessa época, o termo era usado pelos seguidores dos Vedas apenas quando os mesmos se dirigiam aos muçulmanos. Entre eles, o termo não era usado. Ou seja, como os invasores rotularam todos os habitantes nativos de “hindus”, os mesmos usavam o termo para fins práticos. Mas, como entre eles o termo não havia verdadeiro sentido, não havia outro uso do termo. Isso está muito bem documentado e preservado na literatura medieval da Índia, em livros como o Caitanya Bhagavata.

Em sânscrito encontramos dois termos que descrevem esse tipo de comportamento: paramartika e vyavaharika. Paramartika é a linguagem para descrever o sentido último das coisas, uma linguagem filosófica e profunda. Vyavaharika é a linguagem comum, para assuntos do dia a dia. Por exemplo, ao abrir uma conta no banco, temos que preencher um cadastro. Eles lhe perguntam seu nome, data e local de nascimento, etc. Se respondermos que não temos local e data de nascimento porque somos seres espirituais eternos, em pouco tempo estaremos sendo conduzidos para fora do banco pelos seguranças. Temos que usar uma linguagem prática - vyavaharika. E, por outro lado, se estamos tentando compreender assuntos filosóficos, metafísicos e espirituais mas apenas nos identificamos com nossas designações externas, então novamente não teremos muito sucesso. Nessa situação teríamos que usar uma linguagem profunda - paramartika. Então, o que vemos nesse segundo período é o uso de “hindu” no sentido vyavaharika, mas não paramartika. Ou seja, nenhum seguidor dos Vedas considerava que isso era um termo que realmente o identificava em termos espirituais ou filosoficamente profundos. Era apenas uma designação externa que era prática de se usar em certas circunstâncias.

Devemos entender que a cultura védica é muito liberal e não sectária. Sempre foi assim. No Vedas, encontramos o seguinte verso:

“A suprema ocupação [dharma] para toda a humanidade é aquela pela qual os homens possam atingir o serviço devo­cional amoroso ao Senhor transcendental. Este serviço devocional tem que ser desinteressado e ininterrupto para satisfazer o eu completamente” (Srimad Bhagavatam, 1.2.6).

Aqui, não se fala que tem que se adorar uma forma específica do Senhor ou seguir uma doutrina e não outra. A questão é técnica, cientifica. É algo onde se compreende que o importante é o conhecimento (veda significa conhecimento em sânscrito) e que esse conhecimento explica que existem diferentes caminhos para diferentes pessoas - com diferentes resultados. Então, o que se via eram diferentes grupos seguindo diferentes caminhos, mas com a compreensão correta do que cada um estava buscando. Um exemplo grosseiro para melhor entender o ponto pode ser visto em um restaurante. Lá, todos estão com o mesmo cardápio, mas diferentes pessoas pedem diferentes pratos de acordo com seu gosto. Mas todos entendem que estão fazendo a mesma coisa, comendo, e todos reconhecem o cardápio como sendo um só. O ponto aqui é entender que não fazia parte da cultura védica o tipo de violento sectarismo que sempre fez parte das culturas religiosas do Oriente Médio e a concomitante necessidade de rotular as pessoas de acordo com suas crenças. Portanto, com raríssimas exceções, não se vê na história da civilização védica (apesar de ser a mais antiga da Terra ainda existente) conflitos violentos entre pessoas de diferentes compreensões espirituais. É apenas no período moderno que uma certa classe de pessoas mais ignorantes adotaram esse tipo de comportamento sectário, após séculos de domínio sob invasores altamente sectários.

O último período, que podemos chamar de moderno, começa no século dezenove e é marcado pelo uso do termo como é visto hoje. Nesse período moderno os seguidores dos Vedas se auto-rotulam como hindus e sua religião como sendo hinduísmo. Além disso, o termo “hindu” ainda foi adotado para simplesmente indicar alguém que nasceu na região, independente de sua fé ou filosofia de vida.

Durante o domínio Inglês, os políticos usavam o termo “hindu” ou “hinduísmo” de forma pejorativa, para acirrar a distinção entre muçulmanos e a população que seguia suas tradições antigas. Isso fazia parte da política inglesa de “dividir e dominar”. Escritores ocidentais adotaram o termo por ser conveniente e os demais foram influenciados por eles.

Devemos recordar que os ingleses adotaram uma política extremamente agressiva contra a cultura védica. Era a expressa e documentada missão dos ingleses fazer com que os seguidores dos Vedas abandonassem suas práticas e cultura e adotassem o cristianismo e a cultura deles. Com a chegada da modernidade, com trens e telégrafos, a difusão do conhecimento aumentou enormemente. Isso estava sendo usado pelos ingleses para acelerar seu objetivo. Sentindo-se ameaçados, um grupo de pessoas, liderados por Vivekananda e pelo Doutor Radhakrishna, iniciaram um movimento para unir os seguidores dos Vedas. Eles pensavam que, para resistir a esse maciço ataque cultural, precisavam defender uma única filosofia, uma única bandeira.

Como foi explicado anteriormente, na cultura védica existe uma enorme variedade de crenças, que incluem crenças panteístas de religião materialista, sistemas de filosofia impersonalistas, processos de misticismo e filosofias completamente teístas. Temendo que isso os estava enfraquecendo, essas pessoas, em especial Vivekananda, acharam por bem escolher um dos caminhos e dizer que isso era hinduísmo. Ele escolheu a filosofia impersonalista de Shankaracarya (um tipo de prática de jnana-yoga). Devido a sua influência, a rápida difusão de conhecimento da era moderna e a falta de correta e filosófica compreensão dos Vedas da população em geral, essa decisão logo se concretizou. Hoje, em livros sobre hinduísmo, em cursos universitários e na visão geral daqueles que se denominam de hindus, essa é a compreensão da cultura védica. Não só foi escolhida a filosofia de Shankaracarya, mas, o que é pior, uma versão popular e bastante frouxa de sua filosofia. Acadêmicos reconhecem que Vivekananda tinha pouco conhecimento sobre os Vedas, o que pode ser verificado ao ler as transcrições de suas palestras. Um exemplo disso é visto na sua palestra no final do século dezenove numa conferencia mundial de religiões em Chicago, onde ele disse que o conceito de pecado não existia no Hinduísmo, apesar de termo ser absolutamente comum em toda literatura védica, inclusive a principal, o Bhagavad-gita. Na verdade ele era uma espécie de político.

Essa decisão, do ponto de vista filosófico e espiritual, foi desastrosa por ignorar completamente a riquíssima amplitude da verdadeira cultura védica, em especial a elevada filosofia e cultura monoteísta Vaishnava (bhakti-yoga). Até mesmo do ponto de vista estritamente numérico é falha, pois pesquisas mostram que 60% dos hindus acreditam num Deus pessoal.

Portanto, uma compreensão mais profunda e verdadeira sobre o Hinduísmo teria que levar em consideração essas diferentes práticas e caminhos espirituais descritos nos Vedas. Interessante notar que existe uma diferença muito maior em termos filosóficos e práticos entre esses diferentes caminhos védicos do que entre judaísmo, cristianismo e islamismo. Isso mostra como é inadequado querer aglomerar todos sob um único termo. Felizmente, está havendo uma mudança nessa errônea compreensão e a verdadeira riqueza espiritual dos Vedas está sendo conhecida por cada vez mais pessoas.