O Cérebro do Adolescente: Isso Explica Tudo!

Nada melhor para entender adolescentes do que entender como funciona o cérebro deles. Graças aos avanços da neurociência, agora podemos fazer isso. Vamos ver aqui o que está acontecendo em termos neurológicos e como isso explica muito bem como é ser um adolescente e como eles experimentam a vida.

Veja aqui meu vídeo sobre este tema.

As informações aqui são tiradas do livro “Behave” de Robert Sapolsky.

O córtex pré-frontal é aonde acontece o pensamento racional, o controle dos impulsos e a capacidade de reinterpretar emoções e sentimentos.

Chegando na adolescência, o resto do cérebro já está desenvolvido, mas não o córtex pré-frontal. Só fica totalmente desenvolvido lá pelos 26 anos de idade.

A adolescência é o momento de pico para 1) correr riscos, 2) buscar novidades, e 3) afiliação com colegas.  Tudo pelo fato de ter um córtex pré-frontal imaturo.

Adolescente vivenciam as emoções mais intensamente que crianças ou adultos. Uma região do córtex pré-frontal é responsável por pegar a emoção ou fato “perturbador”, tipo “tirei uma nota ruim na prova” e então amenizar o impacto dessa informação “reinterpretando-a” de forma construtiva. Tipo a diferença de achar que tirou uma nota ruim e concluir “eu sou burro” para “porque estava doente, não estudei bastante, etc”.

Num sistema de cavernas famoso na California, tem um trecho que vai descendo uns 60 metros de forma bem íngreme, e no final tem uma queda abrupta de 10 metros. Lá encontraram esqueletos voltando séculos – todos de adolescentes!

É o cérebro pré-frontal que interpreta as informações para julgar se algo é arriscado ou não. No cérebro adolescente esta capacidade de interpretação é limitada. Uma pesquisa mostrou como funciona essa limitação.

Na pesquisa, perguntavam as pessoas qual era a chance de tal evento ocorrer, tipo ganhar na loteria, ter um acidente de carro, etc. Depois, os pesquisadores passavam as estatísticas exatas e novamente perguntavam para as pessoas avaliarem qual erem suas chances do evento ocorrer com eles. Os adultos conseguiam assimilar a informação e ajustar sua análise de risco ou ganho apropriadamente.

Já os adolescentes só ajustam sua análise para melhor. Ou seja, corrigiam as chances de algo dar certo, mas mesmo diante de fatos concretos sobre as chances de algo dar errado, eles mantiam suas expectativas que com eles não teria problema!

Isso explica, por exemplo, porque adolescentes tem 2 a 4x mais chance de tornarem viciados em apostas.

Junta-se a péssima capacidade de analisar riscos a vontade de buscar novidade. Num estudo crianças, adolescentes e adultos tinham seus níveis de dopamina medidos em três cenários diferentes: 1) recebendo um recompensa menor do que o esperado, 2) dentro do esperado e 3) maior do que o esperado.

Para as crianças, o resultado era o mesmo nas 3 circunstâncias. Para adultos era correspondente, ou seja pouco quando era menos, normal quando era normal e mais quando era mais. Mas no adolescente, era negativo quando era menos, normal quando era normal e gigante quando era maior! Ou seja, algo menos do que esperado gera aversão, e maior do que esperado gera euforia. E o normal não tem a menor graça.

A péssima capacidade de analisar risco e a necessidade de buscar novidade é multiplicada pela vulnerabilidade dos adolescentes diante da pressão dos pares. Há uma necessidade desmedida por ser aceito pelo grupo.

Isso leva ao que chamam de contágio social. Um comportamento sendo copiado pelo outro, que então é copiado por mais outros. Com o detalhe perigoso que normalmente se trata de comportamentos que testam os limites, aumentando as chances de haver violência, abuso de substâncias, crime, sexo irresponsável e maus hábitos de saúde. Estudos mostram que desordens alimentícias em adolescentes se espalham seguindo modelos parecidos com os de doenças contagiosas. O mesmo ocorre com depressão entre meninas adolescentes, onde elas compartilham emoções negativas.

Olhe que interessante: em adultos as perguntas sobre “o que você pensa sobre si mesmo” e “o que os outros pensam de você” ativam duas partes diferentes do cérebro. Para adolescentes é uma coisa só. Ou seja, em termos neurológicos, para o adolescente a pergunta “o que você pensa sobre si mesmo” é idêntica a pergunta “o que os outros pensam de você”.

Isso influencia a forma como adolescentes sentem empatia de forma diferente de adultos. Adolescentes sentem a dor do outro ao extremo, totalmente se identificando com o sentimento do outro. Mas eles sentem tanto que isso acaba tirando sua capacidade de agir de forma eficaz a superar o problema do outro, pois isso requer dar um passo para trás, sentir menos e pensar mais nas soluções.

Ao sentir mais intensamente as emoções, ou para ser mais preciso, não ter o mecanismo neurológico para lidar e gerenciar tão bem as emoções, existe a tendência para mais violência também. Soma-se isso a péssima análise de risco e ao estar vulnerável a pressão do grupo, explica porque o pico da violência ocorre da adolescência aos trinta anos de idade.

Para encerrar, podemos perguntar, por que o cérebro se desenvolve assim? Por que o cérebro pré-frontal demora tanto para amadurecer? Uma explicação é que essas “loucuras” da adolescência ajudam o cérebro a desenvolver melhor suas habilidades sociais, ao tão intensamente experimentar as emoções sem regulação, como também servem a expandir os limites previamente estabelecidos da sociedade, com intensa criatividade, assumindo riscos e buscando novidade.

Uma ideia sobre “O Cérebro do Adolescente: Isso Explica Tudo!

  • 13/05/2020 às 02:17
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    Ótimo artigo, faz todo sentido; como sempre vc trazendo informações interessantes . Obrigada!

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