É Possível Morrer Antes da Hora?

Recebi esta interessante pergunta: “Mestre, uma questão que sempre me perturba. Pode algumas pessoas morrerem antes da hora? Ou sempre quando morre é porque chegou a hora?”. Aqui vamos explorar este conceito do ponto de vista dos ensinamentos do yoga.

Veja aqui meu vídeo sobre este tema.

Primeiro, temos que perguntar se tem sentido falar em momento certo para morrer. Como assim? Bom, no yoga temos o conceito da Lei do Carma. Explica-se que tudo que nos acontece, absolutamente tudo, é um fruto de nosso carma. Não há elementos soltos, chance ou acaso. Tudo está milimetricamente sob o fluxo do carma.

Então, nesse sentido, faz sentido dizer que temos um prazo de vida pré-determinado. Temos uma “hora certa” para morrer. Pode ser com algumas horas de vida. Pode ser com 100 anos ou mais.

Mas aí temos que lembrar que este carma não depende exclusivamente do carma acumulado em outras vidas, mesmo que estes são o que predominam em nossa vida.

Carma, afinal, significa ação, em Sânscrito. Em geral, a Lei do Carma implica em viver as reações as ações feitas em vidas passadas. Mas, obviamente, estamos agora agindo também. E nem toda ação tem um prazo tão longo de reação.

Por exemplo, se você optar por colocar sua mão no fogo, vai queimar. A reação será imediata.

Eu costumo explicar que devemos ver nosso carma acumulado de outras vidas em temos de potencial. Eles mostram um potencial que temos para esta vida, mas não são inalteráveis em intensidade ou grau de experiência.

Por exemplo, você pode ter o carma de ser bom em esportes, famoso e rico. Então, nasce com um potencial físico extraordinário e as oportunidades de ser reconhecido por seu talento, para então ser ricamente compensado.

Mas aí, você ainda precisa treinar. Precisa ralar. Precisa se esforçar. Mais ainda, precisa não detonar sua oportunidade. Precisa não estragar sua carreira arriscando seu corpo, digamos fazendo coisas perigosas como dirigir em alta velocidade, ou sob efeito de entorpecentes. Ou não cometer um ato criminoso ou mesmo ofensivo, que acabe com sua carreira.

Ou seja, podemos piorar nosso carma. Podemos piorar por não cumprir nosso dharma, por não sermos a melhor pessoa que podemos.

De fato, muitas pessoas fazem isso. Pioram sua vida. Vivem abaixo de seu potencial. Fazem isso por não buscarem a excelência em seus atos, por não cumprirem seu dharma.

Mais importante ainda é lembrar que a forma como experimentamos a vida é totalmente livre. Ou seja, determinamos completamente como vamos experimentar o carma de que vivemos hoje. Mas isso é assunto para outros ensaios.

Voltando ao tema da morte, podemos falar sobre potencial. Todos nós temos um potencial máximo de duração de vida previamente determinado. Você pode ter nascido com carma para ter uma vida de 60, 80 ou 120 anos. Ou de morrer hoje mesmo. Não sabemos.

O importante é entender que você pode facilmente fazer escolhas nesta vida que vão fazer com que morra “antes da hora”, por exemplo: 1) se drogando ou fumando, 2) detonando sua saúde com maus hábitos alimentares e falta de exercício, 3) não se protegendo, 4) se expondo a risco desnecessário. Ou seja, faltando com prevenção e precaução sensatas por nossa parte ou por parte de outros que tem responsabilidade com nosso bem-estar físico e emocional.

Por outro lado, podemos viver vidas super saudáveis, tomar todas as precauções necessárias, e ainda assim morrer jovem. Estamos, apenas, maximizando nosso potencial de vida. Não determinando em absoluto. Deus sabe o que faz. Não necessariamente viver 100 anos é melhor do que viver 20 anos.

Nosso dharma, nosso dever, porém, é maximizar nossa vida, fazer o melhor que podemos para garantir nossa existência física, mesmo sabendo que somos almas eternas. Fazemos isso porque a vida humana é muito rara, muito especial. É mais valiosa do que podemos conceber. A vida humana é nossa grande oportunidade para buscar a iluminação depois de incontáveis nascimentos.

Nunca podemos nos achar tão especiais e avançados ao ponto pensar que não precisamos de mais tempo na vida humana para nos iluminar. Uma das maiores armadilhas da ilusão é fazer você pensar que já é iluminado e puro. Por humildade, nunca podemos achar que somos tão evoluídos ao ponto de não precisa de mais um dia para nos aperfeiçoar.

Morte é uma ilusão, nunca morremos. Mas valorizamos a vida no corpo humano, reconhecendo que é uma bênção preciosa.

Então, dentro do dharma, maximizamos a vida. Claro, nunca vamos querer violar o dharma para viver mais tempo. Podemos até sacrificar a vida em cumprimento do dharma, como um bombeiro que arrisca sua vida para salvar alguém de um incêndio, ou um pai ou mãe que morre para salvar seu filho. Mas, dentro do que é correto e honroso, ético e moral, nos empenhamos para prolongar a vida. Fazemos nosso melhor, e entregamos a Deus. Maximizamos nosso potencial cármico.

Por isso é sim possível morrer “antes da hora”. E, infelizmente, isso acontece em grande escala no mundo, devido ao não cumprimento do dharma de governantes, agentes do governo, pessoas inescrupulosas e, é claro, nós mesmos.

É realmente trágico ver alguém morrer porque um presidente não soube conduzir uma reposta a pandemia, porque um policial agiu com violência ou negligência, porque um corrupto desviou verbas que seriam usadas para dar saúde e segurança para as pessoas ou porque uma patroa deixa o filho da empregada passear sem supervisão num prédio sem segurança. É trágico ver bilhões de animais morrerem e incontáveis km2 de floresta queimados por maldade e ganância. É trágico ver como as pessoas estão se matando com drogas, cigarros, com péssimos hábitos alimentares e com padrões de pensamento autodestrutivos.

Todo este sofrimento pode ser evitado se criarmos a cultura com foco no dharma, não no ganho. Devemos exigir isso de nós mesmos primeiro e depois dos líderes de nossa sociedade. Temos que criar a cultura do dharma para um mundo melhor.

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