Como Nos Enganamos – Parte 4 – Falácia do Apostador, Aversão a Perda e Efeito Posse

Nesta última parte da série sobre as maneiras como nós nos enganamos, vamos falar de três vieses cognitivos que impactam nossa vida: a falácia do apostador, a aversão a perda e o efeito posse. Vamos ver como nossas decisões são impactadas por essas maneiras enganosas de pensar e o que podemos fazer para evitar este prejuízo na vida.

Veja aqui meu vídeo sobre este tema.

Aqui vamos falar de três vieses cognitivos que estão ligados e afetam nossas escolhas de vida, de investimentos e de carreiras. Aprendendo sobre eles, poderemos evitar erros e prejuízos desnecessários.

 

Falácia do Apostador

A falácia do apostador, também chamada de falácia Monte Carlo, é um erro comum que praticamos ao calcular as chances de algo acontecer. Em suma, achamos que resultados passados alteram as probabilidades atuais. Explicando melhor, achamos que a chance matemática de um evento ocorrer agora é afetada pelo passado, pelos resultados que já experimentamos.

Por exemplo, todo mundo sabe que ao lançar uma moeda as chances são 50% de sair cara e 50% de sair coroa. Tem dois lados. Ou é um, ou é o outro. 50/50. Fácil. É algo inegável, um fato matemático, uma necessidade imposta pela física.

Até aí tranquilo. Digamos que você lança a moeda e sai cara. Tudo bem. Aí te perguntam – E agora, quais as chances de sair cara de novo? Poucos diriam 50%. Achando que de alguma forma o evento passado afeta a realidade atual.

Mas a resposta é 50% mesmo. É igual. Nem que você tenha lançado a moeda mil vezes e mil vezes saiu cara, ainda assim, a chance de na próxima vez sair cara continua 50%!

Se alguém lhe perguntar – Quais as chances de jogar mil vezes seguidas e todas as vezes sair cara? Aí é outra pergunta. Com outra resposta.

Mas o fato óbvio, quando a gente para e pensa, é que as leis da física não mudaram. Ao lançar a moeda agora, a realidade é a mesma: 50% de chance. A moeda, as leis da física, não foram alteradas pelo evento passado.

Assim, na hora de avaliar as chances de ter sucesso num negócio, de fazer um investimento, de algo ruim acontecer, levamos erroneamente em consideração nossa experiência no passado, achando que essas coisas vão mudar as probabilidades matemáticas.

Pensamos: “Não é possível que isso vai acontecer comigo de novo!”. Mas, sim, é perfeitamente possível. Não só isso, é igualmente possível que lhe aconteça, não importa o que já experimentou no passado.

Então, o tolo apostador pensa, perdi tantas vezes, agora minhas chances de ganhar são maiores! Só que não.

A cada evento, você precisa calcular matematicamente as chances de sucesso ou fracasso e é só isso que vale. Os resultados passados não alteram esta realidade matemática.

 

Aversão a Perda

Temos maior aversão a perda do que atração ao ganho. Pesquisas indicam que avaliamos perdas como sendo 2x mais importante do que o mesmo ganho.

Isso significa que se você não levar este viés cognitivo em consideração, você vai se esforçar duas vezes mais para manter algo que tem, do que buscar ganhar algo de igual valor.

Ou seja, ficamos travados! Ficamos presos em nossa zona de conforto. Deixamos o medo nos guiar.

Este medo de perda não é só de coisas e bens. É também medo de perder status ou prestígio, de desagradar os outros. E, claro, medo de riscos à saúde.

Por exemplo, outro dia uma pessoa me escreveu dizendo que não fazia exercício porque uma amiga que é personal trainer se machucou fazendo exercícios. Ou seja, a pessoa deixa de fazer algo importante para ganhar saúde, com medo de “perder” saúde se machucando. Resultado: a pessoa certamente prejudica sua saúde devido a aversão a perda. O medo travou a pessoa.

Muitos fazem isso com relacionamentos. Tendo tido uma experiência ruim, ficam com “aversão a perda” de sofrer novamente. Dão mais foco a não perder, do que a ganhar, e assim perdem as chances de ter relacionamentos saudáveis e prazerosos na vida por medo.

Claro, com investimentos também é assim. Com medo de perder dinheiro, ter um retorno negativo temporário, fazemos investimentos com pouco rendimento. Perdemos ganhos potenciais devido a aversão a perda.

 

Efeito de Posse

O Efeito Posse explica que achamos que aquilo que temos vale mais do que realmente vale, por temos posse da coisa.

Daniel Kahneman realizou um estudo famoso neste sentido. Ele dividiu uma turma de estudantes em dois grupos. Um grupo de alunos ganha uma caneca e precisam avaliar por quanto venderiam esta caneca. O outro grupo pede para avaliar quanto pagariam pela caneca. O grupo que tinha a caneca achou que valia US$7. O grupo que ia comprar, avaliou em US$3.

Mesma caneca, menos da metade do valor. Neste exemplo, por ter a posse do objeto, as pessoas achavam que ele valia o dobro do que as pessoas estavam dispostas a pagar por ele.

Ficamos presos no passado, com medo de perder, sobrevalorizando o que temos.

Isso tem grandes implicações na vida. Ficamos agarrados em coisas que não deveríamos. Isso vale para tudo: relacionamentos, carreiras, investimentos e bens. Aliado à nossa Aversão a Perda, não fechamos os ciclos. Não deixamos a vida fluir.

 

Soluções

Como temos sempre enfatizado nessa série, o mais importante passo é ficar ciente desses vieses cognitivos. Ficando ciente deles podemos trazer à tona seus efeitos em nossas decisões e assim reavaliar a situação com maior grau de bom senso e razão.

Estes três vieses cognitivos aqui apresentados agem em conjunto muitas vezes. A falácia do apostador nos leva ao erro em avaliar os riscos e recompensas de nossas opções de vida. Este erro aumenta a distorção da Aversão a Perda. Junta-se a isso o Efeito Posse, onde sobrevalorizamos o que temos, deixando de enxergar melhores opções para nossa vida.

O resultado são investimentos ruins de tempo, energia e recursos.

Uma solução então é se perguntar que oportunidade está perdendo ao continuar a manter seu dinheiro preso num investimento ruim, ou a continuar a dedicar tempo a um trabalho ou projeto que não rende. Ou mesmo a ficar num relacionamento insatisfatório. O que você poderia estar fazendo? Como você poderia estar vivendo?

Na hora de avaliar os riscos e oportunidades, está levando em consideração os fatos, ou está erroneamente levando em consideração resultados anteriores, achando que estes afetam as probabilidades atuais?

Que resultado poderia ter num outro relacionamento, numa outra carreira ou negócio ou num outro investimento? Ou seja, você está se esquivando de mudanças positivas, preso na sua zona de conforto?

Sua vida está travada pelo Efeito Posse e Aversão a Perda? Você está deixando o medo lhe guiar, ao invés de assumir riscos calculados?

No Curso 15 Coisas Que Pessoas Mentalmente Fortes NÃO Fazem, temos um módulo inteiro dedicado ao tema de deixar de assumir riscos calculados e outro sobre a importância de não se esquivar de mudanças.

A vida fica outra quando conhecemos os vieses cognitivos e as heurísticas da mente, e guiamo05s nossa vida atentos a eles. Assim, podemos trazer maior grau de inteligência e razão para nossas decisões, o que resulta numa vida mais proveitosa, menos conturbada e, assim, mais leve e conducente a iluminação.

Uma ideia sobre “Como Nos Enganamos – Parte 4 – Falácia do Apostador, Aversão a Perda e Efeito Posse

  • 29/09/2020 às 23:07
    Permalink

    Cada vez observo o quanto é importante ampliar a consciência para as sutilezas da vida. Muito interessante perceber como estamos mergulhados nos aspectos externos e como isto nos deixa vulneráveis e fonte de manipulação pelos outros. Os viés tratados nesta última parte nos conduzem a observar a mente para que esta esteja alerta às armadilhas externas. Esta observação traz muito poder, pois vamos ficando mais seletivos sobre as coisas mais simples, mais também as mais complexas, frente às nossas decisões na vida. Todas as reflexões que foram propostas até então, nos levam a não ficar presos em situações passadas, como se não pudéssemos sair delas, sobrevalorizando-as .Na realidade fazem parte das muitas fantasias que vamos alimentando , sem pensar. Mestre Giridhari , sempre grata , por nos conduzir ao caminho das escolhas inteligentes e conscientes.

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