Carma: Se Não Lembro o Que Fiz, Como é Justo Pagar Por Isso?

Uma pergunta muito comum que recebo sempre é: “se não lembro o que fiz em outras vidas, como é justo eu pagar por isso agora pela Lei do Carma? Como posso aprender?”. Aqui vamos responder esta pergunta e mostrar como isso faz sentido e como funciona na prática.

Veja aqui meu vídeo sobre este tema.

Talvez seja difícil pensar em termos de “outras vidas”. Algo que foi feito muito tempo atrás e agora não lembramos.

Então, que tal começarmos com dois exemplos mais fáceis de digerir?

Imagine um bombeiro heroico. Prédio em chamas e lá vai ele salvar pessoas presas no prédio. Salva todo mundo, mas no último momento, ao sair do prédio, caiu um troço na cabeça dele e ele desmaia. Acorda no hospital com amnésia. Não se lembra de nada.

Agora lhe pergunto: essa pessoa ainda é um herói? Merece a gratidão da população, daqueles que salvou, talvez uma medalha? Ou vamos dizer que já que ele não lembra, não merece nada?

Agora uma outra situação. Imagine um bandido. Pessoa ruim mesmo. Comete atos abomináveis. A polícia corre atrás e na tentativa de fuga, o bandido tropeça, bate a cabeça, desmaia. Acorda na cadeia, e não se lembra de nada.

Seria justo ele então ser solto, já que não lembra de nada? Ele é inocente?

Agora que vimos que lembrar ou não de um ato não diminui em nada nosso mérito ou demérito por ele, podemos ir mais fundo na compreensão do tema.

Uma coisa muito importante de entender sobre o carma é que não se trata do ato em si. Não importa onde foi, quem foi, que dia foi etc. O que importa é a INTENÇÃO. O que importa é a consciência do ato, ou mais precisamente, o quanto aquele ato estava alinhado com seu dharma, com o melhor de você.

O que importa, portanto, não é se lembrar ou não do ato, mas sim se a tendência a cometer o ato ainda se encontra em nós agora. Então, recebemos bons ou maus resultados não exatamente pelos atos cometidos no passado, mas pelas mesmas tendências que ainda carregamos conosco hoje.

Por isso que na Bhagavad-gita, o texto base do yoga, verá Krishna explicando uma técnica chamada jnana-yoga. Jnana-yoga é o cultivo de conhecimento espiritual, pelo qual, Ele explica, você queima seu carma acumulado.

Como lenha é transformada em cinzas por um fogo ardente, Ó Arjuna, assim também todas as ações são transformadas em cinzas pelo fogo do conhecimento. – Bhagavad-gita 4.37

Pessoas como você que está lendo este artigo estão aí buscando a luz, buscando se iluminar, se aperfeiçoar. E, com isso, estão queimando carma, evitando ter que passar pelo processo doloroso do carma.

Portanto, na medida que as coisas vão lhe acontecendo, você deve sempre se perguntar: “o que posso aprender com esta situação?”. Reflita bem e pense “neste ato ou evento, quais tendências em mim ainda preciso aperfeiçoar ou eliminar?”.

Meu mestre espiritual explica que a Lei do Carma é uma forma do Universo colocar um espelho diante de você, lhe mostrando quem é.

Sempre há um aprendizado, mesmo que de natureza mais elevada, no sentido de lhe chamar para o desapego e a busca pela transcendência, a libertação espiritual. Isso quando não é apenas para lhe dar um “puxão de orelha” para você curar uma tendência ruim que ainda carrega.

Concluindo, é perfeitamente justo e faz todo sentido você viver hoje a consequência de atos do passado porque receberá lições de como superar quem ainda é hoje, não só quem foi no passado. O yogi vê tudo que lhe acontece com misericórdia de Deus, sabendo que em todas as circunstâncias, poderá evoluir e avançar rumo a uma versão melhor de si mesmo, mais próximo de sua verdadeira identidade eterna e pura.

 

4 ideias sobre “Carma: Se Não Lembro o Que Fiz, Como é Justo Pagar Por Isso?

  • 14/07/2020 às 09:55
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    Gostei muito desse seu texto, como sempre. Obrigado!
    Tenho uma questão. Esse tema leva a uma curiosidade sobre quem fui em vidas passadas. Mas eu concluo de suas palavras que esse conhecimento factual é irrelevante e pernicioso pois pode desviar a atenção do dharma que se coloca hoje. Além disso, essa curiosidade não contribui para o desapego do “eu”, ao contrário, multiplica os “eus” na minha fantasia consciente.
    Em algumas tradições espirituais, é comum a consulta para saber de vidas passadas e esse conhecimento histórico vira um patrimônio subjetivo. Na sua tradição, essa busca me parece não existir, apesar de ser um fundamento. Correto?

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    • 18/07/2020 às 20:53
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      Exatamente, não tem propósito ou utilidade ficar buscando esses conhecimentos, que aliás são quase impossíveis de se obter. Só gera mais confusão e mais apego.

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  • 15/07/2020 às 14:58
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    Bom dia.. assisti as palestras estou acompanhando agora as do yoga sutras, agradeço por transmitir esses conhecimentos.
    Mas eu gosto dos meus acontecimentos. Logo acredito que gostos dos meus carmas. O quê isso pode dizer.

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    • 18/07/2020 às 20:52
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      Sim, existe o bom carma também. Mas a pessoa sábia entende que além de boas ou más situações na vida, temos que ir mais fundo e buscar a transcendência.

      Responder

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