Carma: Se Depois da Vida Humana Podemos Cair Para Vida Animal, Isso Não é Involução?

Talvez o conceito original sobre carma que mais causa espanto para pessoas que tiveram contato com o espiritismo é de a alma cair para uma vida animal após uma vida humana.  A pergunta que fazem é, “isso não é involução?”. A alma estaria “regredindo”? Aqui vamos explicar como o conceito faz perfeito sentido e como é apresentado na cultura do yoga.

Veja aqui meu vídeo sobre este tema.

Os conceitos de reencarnação e carma sempre estiveram presentes na cultura antiga da Índia, ou cultura Védica. Em seus textos sagrados, que são os mais antigos da humanidade, datando de milhares e milhares de anos antes de Cristo, encontramos a explicação que a alma está presa no mundo material, no que chamam da Roda de Samsara, e que só poderá se liberar ao buscar o despertar espiritual. Os conceitos de reencarnação e carma, portanto, vem desta cultura antiga. São nestes textos sagrados que vamos encontrar a versão e explicação original e completa destes conceitos.

A Roda de Samsara é a série de mudanças de corpos que alma recebe de acordo com seus atos e seus desejos, vida após vida. Ora recebendo um corpo materialmente superior, ora recebendo um corpo materialmente inferior. Subindo e descendo, como numa roda, impelido por seu carma.

Encontramos também o termo “oceano de nascimentos e mortes”, para indicar quão vasto e aparentemente interminável é o processo.

No Século IXX a Europa estava experimentando um momento incrível de influência e expansão cultural, com as descobertas deste conhecimento Védico. Pela primeira vez, os Europeus estavam conhecendo a Bhagavad-gita e outros textos sagrados, desta forma sendo expostos ao conhecimento lá contido, que revolucionou a maneira deles de verem o mundo e a espiritualidade.

Este processo foi ainda mais impactante pela descoberta que o Sânscrito, o idioma destes textos, era o precursor do Latim e Grego, confirmando assim a antiguidade da cultura e deixando claro que se tratava de um conhecimento sagrado mais antiga do que a Bíblia, apontando para uma origem dos Europeus bem além do que eles antes tinham imaginado.

Virou febre entre os intelectuais da Europa o estudo destes textos, com múltiplas traduções sendo feitas para as diferentes línguas Europeias. Foi na França, neste contexto cultural, que o Espiritismo surge, como uma adaptação do Cristianismo sob a influência dos textos Védicos, e outros conceitos como da mediunidade.

Entre os conceitos que acabaram formando a base do que hoje é o Espiritismo, ficou a ideia de que há almas diferentes, uma ideia que permeava as margens do Cristianismo, e o conceito que uma alma num corpo humano jamais poderia nascer num corpo animal, ou numa planta ou inseto.

A visão original do conceito de reencarnação é diferente. Nos Vedas se explica que a alma é eterna, sempre existiu, sempre existirá, pois somos uma centelha de Deus. Existem incontáveis almas, mas todas elas são de igual natureza. Não há classificações de diferentes almas.

Vida é sintoma da alma.

Onde há vida, há uma alma. E aqui vida pode ser compreendido da mesma forma que a biologia moderna apresenta.

Os Vedas descrevem vida não só na Terra, mas por todo o Universo. E descreve vidas com alto grau de consciência não só em humanos, mas em muitos outros seres, que seriam materialmente superiores a humanos.

Na vida de um humano ou ser superior a humano, acumula-se carma. Temos suficiente poder de decisão. Com poder vem responsabilidade. Com o poder de escolhas, vem consequências. Essas consequências regem a Lei do Carma, definindo nosso processo reencarnatório.

Na Bhagavad-gita, Krishna explica os conceitos mais importantes de como se dá essa próxima vida, depois de vida humana.

Lá Ele explica que se na vida humana se cultiva uma consciência pesada, chamada de tamo guna, aquela alma volta a nascer num corpo mais baixo. O que seria “tamo guna”?

Em poucas palavras tamo guna é viver uma vida de escuridão, de tolice. Uma vida fazendo o oposto do que deve ser feito, cultivando as piores qualidades. Seria uma vida semeando maldade e dor, regida por irresponsabilidade.

A vida humana é muito especial e rara. Se uma alma recebe um corpo humano mas não cultiva a espiritualidade, as escrituras dizem que viveu como um animal, no sentido que os animais podem fazer tudo que um ser humano faz, exceto cultivar a espiritualidade. Afinal, animais também tem sociedades, constroem casas, fazem famílias, amigos, casamento, cantam, usam ferramentas, brincam, lutam, comem, dormem etc.

Mas os animais têm uma grande vantagem: ao fazer tudo isso não acumulam qualquer carma.

Já o ser humano acumula montanhas de carma se não trilhar o caminho da espiritualidade e cuidadosamente controlar o foco de sua mente. Uma vida humana sem o despertar espiritual é, carmicamente dizendo, um desastre.

Portanto, quem tem uma consciência bestial fica mais bem servido num corpo bestial. É muito mais vantajoso para aquela alma viver seus desejos mundanos num corpo animal. Traz para a alma a experiência mundana que ela busca, seja de nadar, construir, voar, conquistar, matar etc., com zero acúmulo de carma. Traz ainda a vantagem adicional que num corpo animal seu potencial de fazer danos é limitado. A alma com planos mundanos em corpo animal gera menos estrago para os outros e para si mesmo. Podemos facilmente ver o perigo que é um alma num corpo humano em tamo guna enxergando o terrível estrago que seres humanos causam na Terra e as terríveis maldades que fazem um ao outro.

Um exemplo que pode ajudar a explicar o assunto e é mais próximo de nossa realidade é de um sistema penitenciário perfeito.

Quando um cidadão comete um crime ele então é enviado para a penitenciária. Ele ou ela tinha mais liberdade, mas não soube usar bem. Assim, para seu bem e para o bem de outros, sua liberdade é tirada. A ideia não é punir. É reeducar. O conceito é que num ambiente mais restrito, a pessoa poderá aprender a ser melhor, para mais tarde, quando houver uma nova oportunidade, fazer melhor uso de sua liberdade, de seu poder.

Não podemos dizer que é uma involução da pessoa ir para cadeia. É uma evolução. Não é um regresso. É um passo em diante, um avanço. É uma próxima etapa que se tornou necessária e útil devido ao mau uso do livre arbítrio, das escolhas que aquela pessoa fez. É uma chance de estar num ambiente onde não poderá danificar mais sua consciência reforçando sua mentalidade baixa ao cometer mais crimes (nem acumular mais carma no processo). Deixar um criminoso fora da cadeia não é bom nem para o criminoso nem para os demais.

O conceito de nascer numa encarnação com restrições maiores, num corpo animal ou de planta ou inseto, é o mesmo. Uma chance para o aprendizado, um passo para frente num processo educacional, baseado nas escolhas ruins feitas quando a alma tinha mais liberdade e poder.

Da mesma forma que depois de passar um tempo na cadeia, a pessoa volta a ser solta e ter uma nova oportunidade de ser um bom cidadão, assim também a alma que entrou em corpos inferiores automaticamente volta a ter a oportunidade de uma vida humana no devido tempo. Poderá então agir bem, se evoluir e se iluminar… ou não. Ela poderá cometer deslizes de novo e voltar para vidas materialmente inferiores. Com isso, repetindo o processo até se iluminar.

E é por isso que animais tem carma. Por isso que vemos animais também sofrendo. Eles acumularam seu carma em vidas humanas.

De fato, é impossível estar encarnado sem carma.  É unicamente o carma que define todas as condições de vida: que tipo de corpo, em qual planeta, em qual situação, com que tipo de condições prazerosas e adversas na vida etc. Se um ser vivo está num corpo, este corpo foi por ele ou ela “criado” em vidas passadas. Não faria sentido Deus lançar uma alma num corpo animal aleatoriamente, da mesma forma que uma sociedade justa jamais jogaria um bom cidadão na cadeia aleatoriamente.

Nem sequer a vida humana seria um “começo” digno da alma, pois já é um corpo de muitas limitações e provações. O conceito védico é que começamos do topo, num fantástico corpo de Senhor Brahma, como que um encarregado de Deus que gerencia cada Universo. Um ser com duração de vida medida em trilhões de anos, poder total e domínio total sobre a matéria entre outros dons. De lá, vamos “pisando no tomate” e caindo para encarnações inferiores, passando pela vida humana e todas as demais espécies de vida, até, numa dada vida humana, nos iluminarmos de vez.

Devemos por isso aproveitar seriamente esta vida humana para buscar nosso despertar espiritual, pois é uma chance muito rara e especial. Caso contrário, não podemos saber qual será nossa próxima encarnação.

Assim, podemos entender que encarnar num corpo animal para pessoas que cultivam esses valores mais baixos não é uma involução, nem um retrocesso. É um evolução. É uma bênção para eles e para os demais seres vivos. É um passo seguinte natural, desejado indiretamente por aquela alma, e merecido de acordo com sua mentalidade.

5 ideias sobre “Carma: Se Depois da Vida Humana Podemos Cair Para Vida Animal, Isso Não é Involução?

  • 21/07/2020 às 15:34
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    O texto se contradiz em razão e lógica um pouco antes do fim.
    Algumas conclusões no começo do texto carecem de conhecimento ou estudo mais profundo. Certas coisas não podem ser fundamentadas em conclusões pessoais.

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    • 23/07/2020 às 12:06
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      Talvez possa ser mais objetivo. Você acabou não citando qual foi a suposta contradição, nem tampouco o conhecimento que falho. Nada neste texto é baseado em conclusões pessoais. São fatos da história e explicações da versão original do yoga e reencarnação da tradição Védica.

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    • 24/07/2020 às 19:57
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      Os textos trancedentais fogem a razão e a lógica, é natural encontramos dificuldades pra compreensão, para isso necessitamos nos rendermos a um mestre espíritual fidedigno da linha parampara.

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      • 01/08/2020 às 09:53
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        Eu acho que absolutamente fazem sentido. Acho perfeitamente lógica a explicação de reencarnação pela explicação védica.

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  • 22/07/2020 às 03:09
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    Gratidão por suas explicações, Giridhari. Comecei minha jornada em busca da espiritualidade no Espiritismo. Quando conheci os Vedas, há uns três anos atrás, me rendi completamente. Essa questão de um humano reencarnar como animal realmente não é para todos os ouvidos. Precisa estar consciente de que não se é este corpo. Queria, sobre esse assunto, fazer um questionamento que me ocorre sempre que me deparo com a seguinte situação: muitas vezes, estando em algum lugar de pobreza ou miséria (por conta do meu trabalho preciso às vezes ir a locais muito pobres), olhando para as pessoas vivendo naquela situação e, ao mesmo tempo, animais nesse mesmo lugar passando por situações de fome e doença, me pergunto quem sofre mais. Pois às vezes as pessoas estão tão brutalizadas que nem se dão conta de sua extrema miséria, tal como um cachorro cansado que deita em qualquer lugar para descansar. Essas coisas já me deixaram muito deprimida. Você tem ajudado a iluminar meu caminho nessa jornada.

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